Conferência de Afroturismo do MS reuniu atores do setor para debates e proposição

A I Conferência de Afroturismo de Mato Grosso do Sul, realizada na última semana (28 e 29 de março), reuniu cerca de 200 participantes, entre quilombolas, comunidades negras, líderes de terreiros, empresários, associações e representantes do trade turístico. O evento, organizado pela Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul em parceria com o Sebrae e a consultoria Guia Negro, teve como objetivo debater os avanços do afroturismo no estado e traçar diretrizes para um plano estadual.

“Esta 1ª Conferência de Afroturismo de MS está dentro da nossa estratégia de inovação da oferta. Também lançamos no evento a marca ‘Isto É Mato Grosso do Sul – Afroturismo’, visando valorizar e posicionar esse segmento maravilhoso e empoderar toda a comunidade de MS”, salienta Bruno Wendling, diretor-presidente da Fundtur MS.

O evento destacou a importância do afroturismo não apenas como uma ferramenta para o fortalecimento cultural, mas também como uma estratégia concreta para geração de renda e desenvolvimento sustentável nas comunidades. “O afroturismo é uma das atividades em que o empreendedorismo é latente, onde as pessoas abrem suas casas e transformam o lugar em que habitam, compartilhando o seu território e sua a cultura com o público externo. Apoiamos às comunidades nessa estruturação, pois ao oferecer essa experiência é possível garantir o sustento das famílias e promover a valorização cultural”, ressaltou a diretora-técnica do Sebrae/MS, Sandra Amarilha.

Para o Guia Negro, a conferência marca a entrada de Mato Grosso do Sul com protagonismo dentro do movimento. “É um Estado que tem diversificado seu turismo e que mostra que seus investimentos têm sido para contar novas histórias, sendo atrativo para todos os visitantes. Ficamos felizes com o sucesso de público e qualidade dos debates”, ressalta Guilherme Soares Dias, fundador da plataforma de afroturismo.

VISITA TÉCNICA

Como parte da programação da conferência, foram realizadas visitas técnicas a dois importantes quilombos da região: Quilombo Tia Eva, em Campo Grande, e Furnas do Dionísio, em Jaraguari. As visitas proporcionaram um contato direto com as comunidades, permitindo a troca de experiências e o fortalecimento da identidade cultural e histórica desses territórios.

A coordenadora de Diversidade, Afroturismo e Povos Originários da Embratur, Tânia Neres, falou da importância de estar presente no evento para ajudar a fortalecer as comunidades quilombolas. “Venho aqui representando a Embratur para dizer o quanto é importante falar sobre o protagonismo dessas comunidades, que elas existem, que fazem o turismo acontecer no estado de Mato Grosso do Sul e que precisam entender que o turismo gera emprego e renda”.

Quilombo Tia Eva: história e resistência

Na Comunidade Negra Tia Eva, os participantes participaram de uma roda de conversa onde foi apresentada a história da chegada de Tia Eva e sua importância para a região. Os visitantes também conheceram a casa do Sr. Michel, que compartilhou relatos de suas vivências. O Sr. José Antorildo Batista de Arruda, mais conhecido por Toido, realizou um momento sagrado de benzimento trazendo uma experiência espiritual significativa para todos os presentes.

A história da Comunidade Quilombola Tia Eva está diretamente ligada à matriarca Eva Maria de Jesus, uma mulher escravizada que conquistou sua alforria por volta dos 50 anos de idade. No final do século 19, migrou para Mato Grosso do Sul, onde exerceu diversos ofícios, incluindo de curandeira e parteira. Com seus próprios recursos, adquiriu terras e construiu a igreja de São Benedito, dando origem à comunidade. Desde então, a tradicional Festa de São Benedito, realizada anualmente em maio, celebra a cultura e a fé da comunidade. Para saber mais sobre o Quilombo Tia Eva, acesse: www.comunidadequilombolatiaeva.com.br

Furnas do Dionísio: cultura, gastronomia e natureza

A visita seguiu para a comunidade de Furnas do Dionísio, fundada por Dionísio Antônio Vieira, um ex-escravizado que chegou ao local em 1890 em busca de terras férteis. A comunidade ocupa uma área de 1.018 hectares no município de Jaraguari e é lar de cerca de 90 famílias que mantêm tradições culturais e econômicas, como a produção de rapadura e farinha de mandioca.

Durante a visita, os participantes ouviram histórias sobre a comunidade e conheceram Dona Maria, guardiã da memória local, que utiliza peneiras de taboca para registrar e preservar a história do quilombo. O grupo também teve a oportunidade de saborear um almoço tradicional e desfrutar de um banho refrescante numa cachoeira local.

Um dos momentos mais marcantes foi a apresentação da “pizza de rapadura”, uma especialidade da comunidade, considerada um verdadeiro patrimônio gastronômico. Além disso, os jovens da comunidade realizaram uma expressiva apresentação da dança do Engenho Novo, reforçando a riqueza cultural da região. Para saber mais sobre o Quilombo Furnas do Dionísio  acesse:  https://www.instagram.com/quilombo.turismofurnas

Compromisso com o Afroturismo

Para Edson Moroni, gerente de Estruturação e Inovação da Oferta Turística da Fundtur MS, “o evento foi um sucesso. Conseguimos reunir comunidades e mostrar a força do afroturismo no Mato Grosso do Sul. Essa ação faz parte do programa Trilhar MS em diversificar a oferta turística do estado e o afroturismo tem sido uma das estratégias da diretoria de Desenvolvimento do Turismo de MS”.

Com a ampliação das iniciativas voltadas ao afroturismo, Mato Grosso do Sul dá um passo importante para se tornar um destino importante na valorização da herança afro-brasileira, oferecendo experiências autênticas e enriquecedoras para turistas e comunidades locais.

“Vemos essa Conferência de Afroturismo como uma política pública e uma oportunidade de qualificação dos serviços ofertados, principalmente nas comunidades quilombolas. E é também um processo de escuta, onde as comunidades tem a oportunidade de falar”, avalia Vania Lucia Baptista Duarte, subsecretária de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial da Secretaria de Estado da Cidadania (SEC).

Quilombos

Com 22 comunidades quilombolas reconhecidas em Mato Grosso do Sul, a história e a cultura do povo negro desempenham um papel fundamental na identidade do Estado. Essa riqueza cultural, expressa em tradições, gastronomia, manifestações artísticas e na relação com a natureza, tem grande potencial para o afroturismo. O segmento, que valoriza a vivência e o protagonismo das comunidades negras, vem se consolidando como uma oportunidade para ampliar a geração de renda e fortalecer a economia local.

Por meio do convênio entre Sebrae/MS e Fundtur, desde dezembro do ano passado, sete comunidades quilombolas com potencial para o afroturismo são acompanhadas com consultoria especializada. Uma delas é a “Furnas do Dionísio”, localizada em Jaraguari, a 55 quilômetros da capital sul-mato-grossense que abriga 115 famílias.

A comunidade produz rapadura e hortifruti e, a partir da formalização da Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Furnas do Dionísio, passou a receber turistas no local há mais de 10 anos. De acordo com Vera Lúcia Rodrigues dos Santos, representante da comunidade, isso impacta diretamente na geração de renda e, com o apoio do Sebrae/MS, o grupo agora se profissionaliza na área do afroturismo.

Hortifrutis são produzidos na comunidade Furnas do Dionísio.

“Com essa ação, descobrimos que a gente já faz do Afroturismo, o que precisamos agora é melhorar. Então, com essa consultoria queremos tirar do papel nossa organização e montar um roteiro mais específico. Nosso intuito é ter uma programação mensal, receber grupos de turistas para rodas de conversa, fazer um passeio histórico e cultural e oferecer nossos pratos como o almoço caipira. Então, é uma forma de compartilharmos a nossa realidade e gerarmos renda para a nossa comunidade”, expôs.

Para Vera, além do acompanhamento oferecido, ter a oportunidade de participar da Conferência e dialogar com outras comunidades é um passo importante para o fortalecimento do segmento. “Estamos vivendo um marco. É uma oportunidade de trocar experiências e ter novas ideias para começar a desenvolver. Acredito na importância desse encontro, principalmente, para termos a valorização da nossa cultura. As pessoas precisam ter consciência que para ir a uma comunidade quilombola é preciso ter respeito ao nosso modo de viver e estar aberto a uma nova experiência”, pontuou.

Além de “Furnas do Dionísio”, também são acompanhadas as comunidades de Corumbá “Família Ozório” e “Família Maria Theodora Gonçalves de Paula”; de Bonito, “Águas de Miranda”; de Aquidauana, “Furnas dos Baianos”; de Corguinho, “Furnas da Boa Sorte”; e de Campo Grande, “Tia Eva”.

Texto: Fundtur MS e Agência Sebrae MS/ Foto capa: Júlia Ertzogue / Fotos internas: Bolivar Porto e Sebrae MS

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Redação

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