A vinheta do Carnaval Globeleza e a “Adoniranização” do samba paulista

A vinheta do Carnaval 2026 da TV Globo, mais uma vez sob o selo Globeleza, reafirma o lugar central que a emissora ocupa na construção simbólica do imaginário carnavalesco brasileiro. O vídeo apresenta elementos que, à primeira vista, celebram a memória e a tradição do samba: a presença do sambista Jorge Aragão, autor do jingle, ao lado do intelectual, compositor e pesquisador Nei Lopes, bem como o resgate da imagem de Valeria Valenssa, a primeira Globeleza, ícone da estética carnavalesca televisiva dos anos 1990. No entanto, sob essa camada celebratória, a vinheta reproduz velhas assimetrias raciais, regionais e epistemológicas que marcam a história da representação do samba no Brasil.

O que chama atenção — ainda que não cause surpresa — é a forma como os referenciais históricos do samba carioca e do samba paulista são construídos e hierarquizados visualmente. Quando o vídeo se refere ao Rio de Janeiro, surgem imagens de Tia Ciata, Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus, escolhas que reafirmam a centralidade negra na formação do samba carioca.

Quem é homenageado

Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida) foi uma das mais importantes lideranças negras da Pequena África, no Rio de Janeiro, no final do século 19 e início do 20. Ialorixá, cozinheira e articuladora cultural, sua casa na Praça Onze foi um dos principais espaços de sociabilidade negra, onde se consolidaram práticas musicais que dariam origem ao samba urbano carioca, incluindo o registro de “Pelo Telefone” (1917).

Dona Ivone Lara foi cantora, compositora e enfermeira psiquiátrica, sendo a primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma escola de samba, o Império Serrano. Sua obra articula samba, religiosidade afro-brasileira, memória coletiva e resistência feminina negra, tornando-se uma das figuras mais importantes da música popular brasileira.

Clementina de Jesus, por sua vez, foi uma guardiã das tradições afro-diaspóricas no Brasil. Descoberta tardiamente pelo grande público, Clementina trouxe para o centro da cena musical os cantos de trabalho, jongos, vissungos e sambas de matriz africana, reafirmando a ancestralidade negra como fundamento do samba.

Essas escolhas são corretas e incontestáveis, pois remetem à ancestralidade, à resistência e às cosmologias negras que estruturam o samba e o carnaval no Rio de Janeiro. Entretanto, ao deslocar o olhar para São Paulo, a narrativa audiovisual se empobrece drasticamente. O samba e o carnaval paulistas são sintetizados quase exclusivamente pela imagem de Adoniran Barbosa.

Adoniran Barbosa, compositor fundamental da música brasileira, foi responsável por uma obra genial que retrata a vida urbana paulistana, especialmente dos trabalhadores pobres e dos migrantes. No entanto, sua figura passou a operar como um símbolo totalizante do samba paulista, obscurecendo deliberadamente a centralidade negra na origem e no desenvolvimento do samba em São Paulo.

Adoniranização

Essa redução expressa um processo histórico e ideológico que pode ser denominado de “Adoniranização” do samba paulista: a transformação de uma manifestação cultural negra, coletiva e periférica em uma narrativa branca, individualizada e domesticada. Esse processo dialoga diretamente com as políticas de branqueamento que marcaram o projeto de modernidade paulista desde o início do século 20

Causa estranhamento — ou deveria causar — que pesquisadores, produtores e curadores de conteúdo de uma emissora do porte da TV Globo aparentem ignorar figuras centrais do samba paulista negro, tais como:

Dionísio Barbosa, fundador do Grupo Carnavalesco Barra Funda, considerado o primeiro cordão carnavalesco de São Paulo. Dionísio foi um dos principais responsáveis pela organização do carnaval negro paulistano e pela adaptação de práticas culturais afro-brasileiras ao contexto urbano da cidade.

Madrinha Eunice (Deolinda Madre), fundadora da escola de samba Lavapés, foi uma das mais importantes lideranças femininas do samba paulista. Sua atuação foi fundamental para a consolidação das escolas de samba como espaços de resistência, sociabilidade e identidade negra em São Paulo.

Seu Nenê da Vila Matilde (Alberto Alves da Silva) foi fundador da escola de samba Nenê de Vila Matilde, uma das mais tradicionais da cidade. Seu Nenê foi responsável por estruturar um modelo de escola de samba profundamente ligado às comunidades negras da Zona Leste paulistana.

Seu Inocêncio Tobias, ligado à escola de samba Camisa Verde e Branco, foi uma liderança histórica do samba paulistano, atuando na organização dos desfiles e na preservação das tradições herdadas dos antigos cordões carnavalescos negros.

Seu Sebastião Amaral, conhecido como Pé Rachado, foi um dos fundadores do Vai-Vai, escola de samba diretamente ligada à população negra do bairro do Bixiga. Pé Rachado representa a transição dos cordões para as escolas de samba e a permanência das práticas culturais afro-brasileiras no centro da cidade.

Seu Carlão do Peruche foi fundador da escola de samba Unidos do Peruche, referência do samba negro na Zona Norte de São Paulo. Sua trajetória articula carnaval, militância cultural e organização comunitária.

Geraldo Filme foi compositor, cantor e um dos maiores cronistas da experiência negra paulistana. Sua obra denuncia o racismo, o apagamento histórico e as transformações urbanas que expulsaram populações negras de seus territórios tradicionais, sendo fundamental para a compreensão do samba como narrativa social.

Falta de reconhecimento dos saberes negros

A insistência em reduzir o samba paulista a Adoniran Barbosa e aos Demônios da Garoa reforça um lusotropicalismo tardio, que apresenta a cultura brasileira como harmonicamente mestiça, ao mesmo tempo em que apaga conflitos raciais, hierarquias sociais e processos históricos de exclusão. Esse apagamento não é apenas simbólico: ele afeta políticas de memória, reconhecimento institucional e legitimação dos saberes negros.

O contínuo processo de Adoniranização do samba paulista opera, portanto, como um mecanismo de manutenção do status quo sociocultural. Ao invisibilizar os sambistas negros responsáveis pela criação, desenvolvimento e consolidação do samba em São Paulo, a mídia hegemônica contribui para a perpetuação das políticas eugenistas de branqueamento das cosmologias negras — cosmologias estas que são civilizatórias, estruturam formas de vida, organização social e produção de sentido.

A vinheta do Carnaval Globeleza 2026, ao mesmo tempo em que acerta ao valorizar referências negras do samba carioca, falha ao reproduzir um olhar seletivo e assimétrico sobre o samba paulista. Desmistificar essa narrativa é urgente. Reconhecer que o samba de São Paulo é, em sua origem e essência, negro, periférico e comunitário não é um gesto de concessão, mas de justiça histórica. Sem isso, o carnaval televisionado seguirá celebrando a diversidade apenas na superfície, enquanto aprofunda, no subtexto, os silêncios e apagamentos que estruturam a história cultural brasileira.

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Tadeu Kaçula

Sociólogo, mestre e doutor em Participação Política pela USP. É autor de ‘Casa Verde: uma pequena África paulistana’, ‘Samba e Pandemia: 2021, o ano que o samba parou’ e ‘A Imprensa Negra na Década de 1930’

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