Tia Eva (MS) é primeiro quilombo declarado tombado como patrimônio

A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, localizada em Campo Grande, será o primeiro quilombo declarado tombado no Brasil e vai inaugurar o novo Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, criado por meio da Portaria nº 135/2023 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A declaração será feita no dia 10 de março, durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo, no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro (RJ).

Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, localizada em Campo Grande (MS). Foto: Bruna Costa Dias/Iphan

Comunidade Tia Eva em Campo Grande (MS). Foto: Bruna Costa Dias/Iphan

“A declaração de tombamento representa um importante gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas. A valorização da cultura de matriz africana têm sido uma prioridade desta gestão. O trabalho conduzido pelo Iphan para o tombamento constitucional dos quilombos é construído com a participação direta das comunidades, que são as verdadeiras protagonistas. O Quilombo Tia Eva inaugura esse novo momento e o novo Livro do Tombo dedicado aos quilombos. Muitos outros territórios quilombolas receberão, com justiça, esse mesmo reconhecimento”, destaca o presidente do Iphan, Leandro Grass.

Rayssa Almeida Silva, arquiteta, moradora da comunidade e integrante da associação dos moradores, atuou diretamente no resgate da história do quilombo junto com os técnicos do Iphan, descobrindo a ascendência da própria família. Ela acredita que, ao mesmo tempo, está deixando um legado para o futuro e honrando seus ancestrais, que pediam a proteção do território.

“A luta está sendo grande. Primeiramente, estamos buscando realizar o sonho dos mais velhos. A outra luta é despertar o interesse dos mais jovens. Muitas pessoas moram aqui em Campo Grande e não sabem da história. Com esse reconhecimento, ajuda a mostrar o exemplo que Tia Eva foi de não desistir das batalhas da vida.”, comentou.

Como funciona

O tombamento decorre de um longo processo de debate entre a área técnica do Iphan e a comunidade iniciado ainda nos primeiros meses de 2024. Destaca-se que o tombamento das reminiscências históricas de antigos quilombos está previsto pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 216, parágrafo 5°.

Vanessa Pereira, coordenadora-geral de Identificação e Reconhecimento no Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam) do Iphan, esteve à frente desse processo dentro do Instituto. Para ela, a Portaria Iphan nº 135, de 2023 e o trabalho subsequente foram passos fundamentais para tornar concreto o que já era proposto constitucionalmente.

“A Constituição Federal de 1988 trouxe o reconhecimento do valor dos sítios e documentos detentores de reminiscências históricas de antigos quilombos, e, após a regulamentação pela Portaria nº 135 de 2023, o Iphan conseguiu promover essa declaração de um quilombo que guarde essas memórias vivas. Foi um processo de muito diálogo, estudos técnicos para que se pudesse fazer essa proposta e esse primeiro reconhecimento a partir diretamente do mandamento constitucional, algo que será estendido a outros quilombos”, explicou Pereira.

Este tombamento é considerado distinto do instrumento de tombamento administrativo criado pelo Decreto-Lei nº 25 de 1937, pois a Portaria cria um Livro do Tombo específico para os quilombos e detalha uma série de princípios, como a autodeterminação e a consulta prévia, livre e informado das comunidades quilombolas, garantindo seu protagonismo no processo de preservação.

Clique aqui para saber mais sobre os dois anos da Portaria Iphan nº 135, de 2023.

Quilombo Tia Eva

Foto: Bruna Costa Dias/Iphan.

Considerada uma das mais antigas referências quilombolas urbanas do Brasil, a comunidade foi fundada por Eva Maria de Jesus e se consolidou como um importante marco da resistência negra no estado.

Para João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, a declaração de tombamento do Quilombo Tia Eva, o primeiro realizado pelo Iphan, tem importância simbólica para o país em razão do protagonismo assumido pela líder comunitária e religiosa que dá nome ao território.

“Esse é um marco dentro das políticas públicas voltadas à patrimonialização de comunidades tradicionais quilombolas. No caso do Quilombo Tia Eva, há um protagonismo de uma mulher negra, recém alforriada que chega no sertão brasileiro, como era conhecida a região sul do então Mato Grosso e, nesse território, ela constitui uma comunidade fantástica. Era comunidade rural e que agora se insere no contexto urbano. Assim, estamos evidenciando o protagonismo das mulheres na formação desses núcleos no início do século 20, em que se origina o Tia Eva”, explicou o superintendente.

Nilton dos Santos Silva, tataraneto de Tia Eva, comemora a declaração de tombamento como possibilidade de outras pessoas se interessarem pela história da comunidade.

“Tudo que eu aprendi e o que sou vem de gerações passadas. Espero agora, com o tombamento, o reconhecimento da história, praticamente, da fundação de Campo Grande, onde tudo começou, e também mais coisas para a comunidade, como reformas e visitantes.”, finalizou.

Grafite

Um mural em referência à Tia Eva localizado na Rua 14 de Julho, entre a Av. Afonso Pena e a Rua Barão do Rio Branco, o “Benção Tia Eva”, deve desaparecer em breve porque as placas de concreto da parede lateral da Galeria onde fica, a São José, estão descolando e caindo. O problema começou em 2025, quando uma clínica dentária que fica ao lado teve telhado destruído.

De acordo com o Campo Grande News, a pintura feita em 2022 começou a cair dois anos depois até atingir o telhado da clínica. A Justiça determinou que o condomínio realize em até 20 dias reparos no muro do prédio de 13 andares, após laudo apontar risco de desprendimento de partes da fachada que podem atingir vizinhos e pedestres. Caso não cumpra, o condomínio poderá pagar multa diária de R$ 5 mil por até 30 dias.

A perícia, no entanto, identificou infiltrações do 5º ao 13º andar e recomendou investigação e recomposição completa do revestimento. Segundo o síndico, as obras serão realizadas após autorização da prefeitura e, com a retirada do reboco danificado, o mural de Tia Eva existente no local deverá desaparecer.

O grafite é hoje a única referência à Tia Eva em Campo Grande fora da comunidade.

112ª Reunião do Conselho Consultivo, no Rio

A 112ª Reunião do Conselho Consultivo vai deliberar ainda sobre registros e tombamentos de sete bens como Patrimônio Cultural Brasileiro. Confira a pauta completa aqui.

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Redação

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