Chegar na Ilha do Marajó, no Pará, já parece estar no destino final de uma longa viagem. Mas, para ir ao Quilombo das Mangueiras, em Salvaterra, ainda é preciso seguir caminho. Barco, estrada, barco novamente e mais um trecho de estrada. O percurso faz parte da experiência e, de certa forma, prepara a gente para desacelerar e olhar para o território com outros olhos.
O destino é uma comunidade quilombola formada por mais de 600 pessoas há cerca de 200 anos, descendentes daqueles que tiveram a coragem de fugir da escravização e construir, em meio às paisagens do Marajó, uma nova possibilidade de vida.
“Aprendi que coragem também é fugir. Foi assim com os nossos que saíram da escravização e aqui chegaram. Assim como resistir hoje aqui no território também é um ato de coragem”, diz Noemi Barbosa, uma das lideranças do quilombo e responsável pelo Ateliê Sementes do Quilombo, que recebe turistas e mantém uma pequena loja com a produção feita na comunidade.

O Quilombo das Mangueiras é, portanto, um lugar onde a resistência não está apenas no passado. Ela continua presente na forma como a comunidade preserva seus saberes, celebra sua cultura, cuida da natureza e cria maneiras de receber quem chega.
Vivências
Aqui o turismo acontece de um jeito diferente. Não é apenas chegar, tirar algumas fotos e ir embora. A proposta é vivenciar. É passar um tempo no território, ouvir as histórias, experimentar os sabores, acompanhar atividades e perceber como os conhecimentos ancestrais continuam fazendo parte da vida cotidiana.
A experiência foi promovida pela Quase Nativa, em uma imersão que coloca a comunidade no centro da narrativa. Quem visita tem a oportunidade de conhecer o quilombo a partir do olhar de quem vive ali e, principalmente, de entender que a maior riqueza de um território não está apenas nas suas paisagens.
Está nas pessoas.
Entre uma conversa e outra, a cultura aparece de diferentes maneiras. Tem carimbó, boi-bumbá e oficinas que permitem colocar a mão na massa e aprender a fazer bonecas de pano, chamadas de abayomis, que carregam a ancestralidade de quem veio em navios negreiros do continente africano e passou a sabedoria de geração em geração.
Mas o que torna a experiência especial é justamente a possibilidade de sair do lugar de espectador e participar da rotina.

É possível acompanhar a comunidade em atividades ligadas ao território, conhecer de perto os búfalos, animais que fazem parte da paisagem marajoara, andar a cavalo, navegar e tomar banho nos igarapés. São momentos que ajudam a lembrar que viajar pode ser simplesmente parar, respirar e estar presente.
Gastronomia
Uma das experiências que mais chamam a atenção é a possibilidade de conhecer o turu, molusco encontrado em áreas de mangue e muito presente na culinária amazônica. A experiência de acompanhar a coleta e depois provar o alimento aproxima o visitante dos conhecimentos tradicionais do Marajó.

E há ainda a comida.
Experimentar as delícias preparadas na comunidade é ter acesso a uma comida caseira, com alimentos plantados e colhidos na região e sem agrotóxicos. A mesa vira espaço de encontro, conversa e troca. A hospitalidade não aparece como um serviço padronizado, mas como uma maneira de receber, compartilhar e contar histórias: fazemos parte dessa mesa farta de alimentos e narrativas.
É nesse contato que o afroturismo ganha sentido e tem presente um dos seus significados: o afeto.
Comunidade é protagonista
Conhecer uma comunidade quilombola é reconhecer que esses territórios guardam histórias, conhecimentos e formas de viver que foram fundamentais para a construção do Brasil e que seguem sendo preservadas, apesar das dificuldades. Só na Ilha do Marajó são 18 quilombos.
É importante lembrar que no afroturimo as comunidades não são cenário, mas protagonistas da viagem.
O que nos leva a concluir que as maiores belezas do Quilombo das Mangueiras são o encontro, o aprendizado e o fortalecimento de quem há centenas de anos constrói essa história e conhecimentos. Viva o turismo de base comunitária, viva o afroturismo!
*O jornalista viajou a convite da Quase Nativa – Expedição Amazônia Paraense, que está sendo potencializado por meio de uma parceria com o SER, por meio da Chamada Pública Aipê — Aliança pela Inclusão Produtiva. A iniciativa conta com o apoio de parceiros fundadores: BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Fundação Arymax, Fundação Tide Setubal, Instituto Humanize, Instituto HEINEKEN, Instituto Votorantim e Santander.























