Afroturismo cresce no Brasil e se consolida como motor de economia, cultura e experiências

O afroturismo tem ganhado cada vez mais relevância no Brasil ao propor uma nova forma de viajar: centrada na valorização da cultura, da ancestralidade e da história negra. Entre 2024 e 2025, o segmento registrou um crescimento de 30% no número de experiências oferecidas, impulsionado pela demanda por roteiros mais autênticos e conectados aos territórios. 

Com forte presença em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, o setor já reúne mais de 47 empresas ativas, muitas delas estruturadas a partir do turismo de base comunitária. Ao mesmo tempo, acompanha uma tendência mais ampla do turismo nacional: o crescimento do interesse por experiências culturais, identitárias e de impacto social, especialmente entre viajantes jovens e urbanos que buscam significado nas suas jornadas.

O movimento se soma ao crescimento do turismo internacional no Brasil que atingiu 37% em 2025, sendo a maior variação positiva do mundo, fazendo com o que o país chegasse a 9,3 milhões de turistas estrangeiros – número inédito. Os estrangeiros, principalmente afroamericanos e turistas europeus, buscam roteiros com história e cultura negra.

Ascensão do afroempreendedorismo 

Esse movimento também dialoga diretamente com o avanço do afroempreendedorismo no país. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o empreendedorismo negro movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano no Brasil, um dado que evidencia a potência econômica desse ecossistema. Nos últimos anos, o setor tem avançado com a ampliação do acesso a crédito, o fortalecimento de redes de apoio e a valorização da cultura negra como diferencial competitivo. No turismo, isso se traduz em experiências que não apenas geram renda, mas também promovem narrativas historicamente invisibilizadas.

“Ao olhar para o afroturismo, estamos falando de um setor que une cultura, identidade e geração de renda. Ele movimenta economias locais, fortalece empreendedores negros e cria novas narrativas sobre o Brasil. É uma potência econômica e simbólica que ainda tem muito a crescer”, afirma Guilherme Soares Dias, fundador do Guia Negro, plataforma de afroturismo que realiza experiências turísticas em diversas cidades brasileiras, realiza consultorias e produz conteúdo sobre viagens, cultura negra, movimentos e negócios pretos.

Iniciativas que transformam territórios

Em diferentes regiões do país, iniciativas têm mostrado como o afroturismo pode transformar territórios em experiências culturais profundas. A Bitonga Travel, idealizada por Rebecca Alethéia, conecta mulheres negras viajantes e promove encontros e viagens coletivas com foco em segurança, pertencimento e troca. Já o projeto Brasília Negra, conduzido por Bianca Daya, oferece uma imersão na história afro-brasileira na capital federal, sendo reconhecido pela sua capacidade de transformar a cidade em um espaço de aprendizagem e resistência.

Em Olinda, a Caminhada Olinda Negra, do grupo Alafin Oyó, propõe uma experiência sensorial que combina história, dança e música pelas ladeiras da cidade, enquanto em São Luís, o projeto Cidade Griot, liderado por Marcelo Cardoso, ressignifica o centro histórico com narrativas afrocentradas que dialogam com públicos locais e internacionais.

Além dos roteiros, o afroturismo também impulsiona negócios da economia criativa e da gastronomia. No Dida Bar e Restaurante, comandado por Dida Nascimento no Rio de Janeiro, a culinária se mistura ao samba e à valorização da cultura africana em eventos e encontros culturais. Já o Teresa Bar, em Campo Grande, homenageia a líder quilombola Teresa de Benguela com um cardápio autoral e programação musical, conectando história e entretenimento em um ambiente de celebração da cultura negra.

Associação Brasileira de Afroturismo 

Com o crescimento do setor, foi lançada uma iniciativa inédita do turismo. A Associação Brasileira de Afroturismo (Abrafro) foi criada para articular profissionais, pesquisadores, empresas e comunidades, fortalecer redes e impulsionar a consolidação do afroturismo em âmbito nacional. A associação foi fundada por empreendimentos de norte a sul do Brasil para refletir a diversidade territorial do afroturismo no país. 

Integram a associação iniciativas como Afroturismo HUB (SP), Guia Negro (SP), Traveler XP (RN), Da Cor ao Caso (MA), Diáspora Black (SP), Me Leva Cerrado (DF), Deborah Tour Guide (SP), Etinias Turismo (RJ), Sou Mais Carioca (RJ), Lua Carioca Afroguide (RJ), Sensações Turismo (MG).

Também fazem parte Quilombo Aéreo (MG), Afroturs (BA), Raquel Nevas Tour Guide (RJ), Bahia Guide Like a Sotero (BA), Rota da Liberdade (SP), Conectando Territórios (RJ), Bela Oyá Pantanal (MS), Afroturismo Amapá (AP) e Sheila Souza Tour Guide (RJ).

Prêmio do Afroturismo

Outra ação inédita do setor é a criação do Prêmio do Afroturismo, oferecido pelo Guia Negro, que tem como intuito dar visibilidade para iniciativas que vêm redesenhando o turismo brasileiro.

Em sua 4ª edição, o Prêmio vai reconhecer 10 categorias que se destacaram no setor em 2025 em 14 de abril de 2026, no auditório transformation, no Expo Center Norte, dentro da maior feira de turismo do continente, o WTM Latin America, em São Paulo. Finalistas das cinco regiões do país foram escolhidos por jurados do setor, que decidem quem são os vencedores. 

Em um país onde a maioria da população se autodeclara negra, o afroturismo surge não apenas como tendência, mas como uma resposta concreta à demanda por representatividade, pertencimento e experiências que contém a história do Brasil sob novas perspectivas.

Leia mais:

Compartilhe:
Avatar photo
Redação

O Guia Negro faz produção independente sobre viagens, cultura negra, afroturismo e black business

Artigos: 824

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *