Após provocação do Guia Negro, Ministério do Turismo faz novo mapeamento do afroturismo

Um ano depois de lançar um mapeamento que não trazia grande parte das ações de afroturismo que ocorrem no país, o Ministério do Turismo lançou na sexta-feira (8), durante o Salão do Turismo 2026, em Fortaleza (CE), a 13ª edição do Boletim de Inteligência de Mercado no Turismo (BIMT), desta vez dedicada ao afroturismo. Em 2025, o Ministério do Turismo fez um primeiro material que trazia 44 roteiros de afroturismo. O Guia Negro apontou que o material deixou pelo menos 56 iniciativas de fora.

Dessa vez, a publicação foi elaborada a partir de um esforço colaborativo que envolveu o Ministério da Igualdade Racial, a Embratur e diversos atores do afroturismo, entre eles nós do Guia Negro, que demos uma consultoria gratuita para o órgão. Em contrapartida, o documento traz um agradecimento especial para o fundador da plataforma Guiherme Soares Dias.

De acordo com o órgão, esse é um dos segmentos que mais cresce e ganha reconhecimento em todo o Brasil. O novo documento apresenta um retrato mais abrangente do setor, destacando o protagonismo da cultura afro-brasileira e das experiências que conectam história, identidade e desenvolvimento econômico.

Agora, 101 experiências e 32 eventos em todo o Brasil. Entre eles, alguns realizados pelo Guia Negro, como a Conferência de Afroturismo do Mato Grosso do Sul, realizado em março de 2025, junto com Sebrae MS e Fundação de Turismos de Mato Grosso do Sul, e o Congresso Brasileiro de Afroturismo, realizado em Belo Horizonte em dezembro de 2025, junto com a Sensações Turismo.

A maior parte dos roteiros estão presentes nas regiões Sudeste e Nordeste. A iniciativa foi um dos destaques do segundo dia do Salão do Turismo, realizado pela primeira vez no Nordeste.

Avanço estratégico

Para o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, o lançamento marca um avanço estratégico. “Este lançamento reforça o nosso compromisso do governo do presidente Lula com o fortalecimento de um setor com potencial estratégico e gigantesca importância cultural para o país. Apoiar o afroturismo é fazer justiça social, dando voz a comunidades que foram invisibilizadas, mas que guardam a essência da nossa cultura. Ao investirmos no afroturismo, estamos combatendo o preconceito e mostrando que nossa maior riqueza é a diversidade”, frisa.

O boletim evidencia a consolidação de um verdadeiro ecossistema: roteiros urbanos, caminhadas históricas, vivências em comunidades quilombolas, experiências gastronômicas e práticas culturais e religiosas que se consolidam como potência simbólica e econômica. O material também analisa o perfil da demanda, os desafios estruturais e as oportunidades de expansão do segmento.

Acesse AQUI o boletim do afroturismo

Dinamismo e qualificação

Entre os dados relevantes, o mapeamento mostra que o afroturismo é impulsionado majoritariamente por mulheres: 66,4% dos empreendimentos são liderados por mulheres negras. Além disso, o segmento demonstra um dinamismo recente – 41% dos negócios foram criados nos últimos três anos. E há alto nível de qualificação, com mais de 40% dos empreendedores tendo ensino superior e 36% sendo pós-graduados.

A demanda também acompanha o crescimento. O boletim aponta que 82% das pessoas negras preferem consumir serviços turísticos geridos por empreendedores negros, enquanto 91% participariam de experiências ligadas à cultura afro-brasileira. O interesse global também avança: buscas por experiências afrocentradas cresceram 30% entre 2024 e 2025.

“O boletim traz informações qualificadas para que a gente possa orientar o mercado, a iniciativa privada e os gestores públicos. O boletim traz todo o Brasil, desde o turismo de base comunitária, o turismo em comunidades quilombolas, até o afroturismo praticado em centros urbanos, que retratam uma outra perspectiva que, geralmente, não é contada no turismo comum, que é o desenvolvido pelas pessoas negras daquele território”, explica Fabiana Oliveira, coordenadora-geral de Produtos e Experiências Turísticas do Ministério do Turismo.

O documento reforça ainda o papel do afroturismo como instrumento de inclusão produtiva, geração de renda e promoção da igualdade racial. No Brasil, o segmento se posiciona como vetor estratégico para o desenvolvimento do turismo, ao mesmo tempo em que promove a educação antirracista, a valorização de patrimônios e o fortalecimento de comunidades tradicionais.

Afroturismo no Salão

A programação da última sexta-feira-feira (8) do Salão do Turismo incluiu a exibição do documentário “Pantanal Negro”, produzido em Mato Grosso do Sul. Com 90 minutos de duração, o longa propõe lançar luz sobre relações históricas frequentemente invisibilizadas, ao destacar a presença e a influência da cultura afro-brasileira no estado. São saberes que sustentam a vida na região e que alimentam o afroturismo local.

O filme direciona seu olhar especialmente ao município de Corumbá, onde atualmente existem três comunidades quilombolas reconhecidas e mais de 200 terreiros em atividade.

Já a Associação Brasileira de Afroturismo (Abrafro) teve uma mesa representada por Solange Barbosa, da Rotas da Liberdade, e Fabio Araujo, da Caminhada Fortaleza Negra. O tour afrocentrado ocorreu no sábado (9), mas acabou ficando de fora da programação oficial.

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Redação

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