Entre rios que guardam histórias e territórios atravessados por memórias silenciadas, nasce Pantanal Negro, documentário que propõe um deslocamento urgente: sair da paisagem e olhar para as pessoas. Com direção artística e produção executiva de Thayná Cambará, idealizadora e diretora da Bela Oyá Pantanal, o filme está sendo lançado em mostras e festivais de cinema e coloca o afroturismo, movimento de recontar as histórias das viagens pelo olhar do protagonismo negro, nas telonas.
O filme nasce das mesmas raízes que sustentam a atuação da Bela Oyá Pantanal, agência de afroturismo do Mato Grosso do Sul, que propõe experiências no encontro com o território e agora chega ao audiovisual dando permanência, alcance e profundidade às vivências. “O filme não é um produto isolado, é parte de uma trajetória. Ele nasce das relações construídas com as comunidades ao longo dos anos e se torna uma ferramenta de educação, sensibilização e posicionamento”, explica a diretora.
Ao longo da narrativa, Pantanal Negro revela uma camada historicamente invisibilizada: a presença negra no Pantanal, os povos de terreiro, as comunidades quilombolas e os saberes que sustentam a vida na região. “Durante muito tempo, o Pantanal foi apresentado como um território vazio, sem gente, sem história. Mas o Pantanal é habitado, é vivido, construído por pessoas”, diz Thayná.
Para ela, o filme também atravessa uma dimensão pessoal, marcada por sua reconexão com a espiritualidade e com as tradições afro-brasileiras. “O afroturismo, para nós, não é apenas um segmento, é uma estratégia de desenvolvimento territorial. E esse reconhecimento mostra que esse caminho começa a ganhar escala, sem perder sua essência, que é o território, as pessoas e a ancestralidade”, completa.

Mais do que dar visibilidade, Pantanal Negro propõe reconexão. O filme convida o público a reconhecer um Pantanal que pulsa para além da paisagem, um território afro-pantaneiro, onde fé, cultura e cotidiano se entrelaçam. “Esperamos que as pessoas entendam que existe um Pantanal que talvez nunca tenha sido apresentado a elas: um Pantanal negro, ancestral, espiritual e profundamente humano”, afirma.
Experiência viva
Ao trazer para a tela manifestações como o Arraial do Banho de São João de Corumbá — reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil — e evidenciar a força das comunidades de terreiro, o documentário também se apresenta como uma experiência viva de afroturismo. Uma travessia entre memória e presente, entre espiritualidade e território. “Mais do que dar visibilidade, é reconhecer o quanto essa cultura nos forma, nos atravessa e nos constitui”, conclui Thayná.
O filme teve seu primeiro lançamento durante a 10ª edição do Salão do Turismo, em Fortaleza (CE), em 9 de maio, marcando um encontro potente entre mercado, ancestralidade e identidade. A pré-estreia se afirmou como gesto político. Em um espaço historicamente voltado à comercialização de destinos, Pantanal Negro inseriu uma narrativa que tensiona essa lógica e ampliando o entendimento sobre o território.

“É ocupar um espaço voltado ao mercado e inserir ali uma narrativa que fala de memória, de ancestralidade e de pertencimento. Não existe destino sem história, não existe experiência sem cultura, e não existe desenvolvimento sem reconhecer quem são os sujeitos daquele território”, afirma Thayná.












