“É aqui mesmo, moça? Pode entrar aí?” diziam os motoristas de aplicativo que nunca levaram um passageiro ao Espaço Cruz da Esperança. A desconfiança era justificada. Ao chegar no endereço, um portão velho de ferro aberto dava acesso à uma via escura de terra batida. O caminho, trilha à dentro, era margeado por um córrego de pouca água e desembocava em um estacionamento, que aos sábados vivia lotado. Ao fundo, um campo de futebol e um grande espaço de onde se ouvia samba, black music e barulho. Barulho de festa e de gente.
É muito estranha a sensação de descrever o Cruz da Esperança usando o passado, uma vez que vi tudo isso, com esses olhos pretos e grandes, há tão poucos dias. A verdade é que o tempo é um ordem relativa. Foram necessárias poucas horas para demolir quase 70 anos.
Desde a sua fundação em 1958 por um grupo de taxistas, o Espaço Cruz da Esperança promoveu o samba e o futebol de várzea na zona norte de São Paulo. Há relatos de pessoas que só vieram ao mundo porque em uma noite de lua iluminada, papai e mamãe riscaram o chão do Cruz embalados pelo samba-rock. Também há relatos de jogadores de futebol que tiveram um pontapé no esporte em uma peneira no chão de terra do Cruz. São nomes como Basílio, o “Pé de Anjo”, ex-jogador do Corinthians.
De geração em geração, famílias inteiras se reuniram ali até chegar a nossa vez. Vivemos o Samba do Cruz de última hora às quartas-feiras, que acabavam com a manhã de quinta; os intervalos do DJ Nó com aquela clássica do Marcelo D2 e da Negra Li; a caipirinha forte, os eventuais churrascos aos domingos, e a certeza de que não importa se o sábado começava em Santana, na Barra Funda, no Bixiga ou na Casa Verde, todos os caminhos levavam para o Cruz no final.
Foram anos e anos assim. Entretanto agora, dias após as escavadeiras trabalharem, já preciso respeitar a língua e me referir com o uso do passado. Até a pesquisa do Google já informa que o Espaço Cruz da Esperança “foi”: “Foi um tradicional reduto de cultura negra”.
Existe um nome para a sensação amarga, triste ou desoladora de se perder algo ou alguém. Chamamos convencionalmente de luto. Para o luto, dentro da experiência em si, pouco importa tanto se foi abrupto ou se já se respirava por aparelhos, em seus últimos suspiros; com ou sem aviso, parece de repente. De repente, já não estava mais lá. Já não se pode mais ver, tocar, conviver, ouvir ou sentir. O vazio toma conta.
Acredito que nós, enquanto sociedade, mas sobretudo as pessoas negras, mulheres e demais grupos que vivem na linha tênue da manutenção dos direitos básicos, somos cada dia mais obrigados à passar por cima da perda. A perda de um filho em uma operação policial, a perda de uma irmão em um vendaval, a perda de uma mãe vítima de feminicídio, a perda de uma casa após uma enchente.
Se até mesmo esses lutos, tão sólidos e nefastos, são invisibilizados e até descredibilizados, sob a sentença do “será que era envolvido?”, “mas talvez ela tenha traído…”, quem dirá a perda de um espaço de lazer e esporte? Nos dias de hoje, não significa absolutamente nada.
“Não sejam materialistas. O que vale é a história que fica.”, já consigo ouvir os argumentos. Ora ora, muito conveniente pedir para esse povo preto não focar no material. Como é precioso esse discurso de memória, legado e lembrança. Chega de virar história! A gente quer se manter vivo. Desejamos sim a materialidade da nossa existência física e simbólica. Queremos nossas pessoas vivas e sãs; nossa cultura de pé; nossas formas de lazer, vivência, amor, crença e sociabilidade respeitados e possíveis.
Mas nesse país, e sobretudo nessa megalópole chamada São Paulo, vão derrubar tudo, absolutamente tudo que não for comprado e comprado caro. Não existe valor, existe preço.
Não existe política pública eficaz, existe uma máquina intencionalmente burocrática, morosa e elitizada que age contra o povo. Um povo que por sua vez, precisa aprender a se organizar e se articular, dentro das regras desse jogo, pois infelizmente, não há boa fé.
Eu sei que, como cantava Chico, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”, mas hoje, quero lamentar pelo fim de um lugar especial pra muita gente, inclusive pra mim.
Desse lugar, que foi símbolo de uma comunidade e da cultura do samba. Desse lugar que me deu amigos, selou momentos, foi palco de aniversários, e até motivo para mudança. Poucos minutos depois de visitar o apartamento, com o pé no hall, joguei no google maps a rua do prédio e a rota até o Cruz. “10 minutos de carro? Pronto. Dá pra morar aqui”. E assim já se passaram anos. Anos que acabaram em poucas horas, com os tratores.
Dizem que a esperança é a última que morre, mas essa semana, um espaço de paredes verdes, com sobrenome “Da Esperança”, morreu.
Silêncio, o sambista está de luto.












