“Quando Partir Também é Permanecer” por Uran Rodrigues sobre terremoto em Cali na Colômbia ( parte III)

Conforme as horas avançavam, outra preocupação começava a aparecer: onde encontrar comida naquela noite?

Era segunda-feira. Os estabelecimentos estavam fechados, e a cidade parecia ter parado. Durante o dia, eu já havia ido ao centro de Cali. Minha intenção era simples: comprar uma mochila, porque no dia seguinte eu pretendia fazer uma trilha até o Cristo Rei.

Eu ainda não havia entendido a dimensão do que tinha acontecido.

Na minha cabeça, apesar do terremoto, nada parecia ter sido tão grave assim.

Mas quando cheguei ao centro, comecei a perceber que alguma coisa estava muito errada.

Poucos estabelecimentos estavam abertos. A maioria das portas estavam fechadas. Havia poucas pessoas nas ruas. A sensação era quase de estar dentro de um episódio de The Walking Dead: uma cidade enorme, normalmente movimentada, completamente esvaziada.

Enquanto caminhava, comecei a observar as marcas deixadas pelo terremoto.

Vidraças quebradas. Marquises danificadas. Portas de vidro estilhaçadas. Prédios com sinais visíveis do impacto. Em alguns edifícios, havia seguranças posicionados na entrada.

E havia também muitas pessoas na rua, desabrigadas.

A situação era ainda mais complexa porque muita gente não conseguia sequer chegar ao centro. O caos havia afetado o sistema de transporte, dificultando a circulação pela cidade.

Foi então que entendi: Cali havia entrado em uma espécie de estado de colapso.

Voltei para o Airbnb.

E foi ali, dentro do lugar onde eu deveria estar seguro, que tive outro choque.

Comecei a perceber as rachaduras nas paredes.

Até aquele momento, eu estava pensando na viagem do dia seguinte, na trilha até o Cristo Rei, nas coisas que ainda queria conhecer. Mas, diante daquelas rachaduras, comecei a pensar em outra coisa: o que aconteceria se houvesse um novo terremoto?

Dez anos haviam se passado desde um terremoto daquela magnitude na Colômbia. E agora eu estava ali, dentro de uma cidade atingida por um novo abalo, tentando decidir se fazia sentido permanecer.

Foi quando tomei a decisão:

Eu precisava voltar ao Brasil.

Mas havia um problema.

Como sair de Cali se o aeroporto estava fechado e o sistema de transporte estava praticamente colapsado?

Comecei então a procurar alternativas pela internet. Foi quando encontrei uma possibilidade: voltar de ônibus para Medellín e, de lá, tentar chegar ao aeroporto para pegar meu voo de volta ao Brasil.

Parecia simples na tela.

Na prática, seria uma verdadeira odisseia.

Na madrugada, fui até a rodoviária de Cali para tentar pegar um ônibus por volta das quatro da manhã. Mas não havia ônibus naquele horário.

O primeiro ônibus disponível sairia somente às seis e meia.

Então fiquei ali, na rodoviária, aguardando.

Enquanto esperava, acompanhava as notícias no celular. As imagens e os relatos que chegavam de outras regiões eram cada vez mais assustadores. A dimensão da catástrofe começava a ficar ainda mais evidente.

Finalmente, o ônibus saiu pela manhã.

E começou uma longa viagem de volta para Medellín.

O trajeto, que já seria cansativo em condições normais, naquele contexto se transformou em uma experiência de ansiedade permanente. O ônibus fazia paradas pelo caminho, entrando e saindo de cidades, barreiras militares na estrada  enquanto eu acompanhava o relógio e fazia contas na cabeça.

Meu maior medo era não chegar a tempo.

Eu precisava chegar ao Aeroporto Internacional de Medellín.

Precisava conseguir embarcar.

Precisava voltar para o Brasil.

E, a cada parada, a cada minuto que passava, aumentava a sensação de que talvez eu não conseguisse.

Foram horas dentro daquele ônibus, atravessando uma Colômbia ainda marcada pelo impacto do terremoto, enquanto eu tentava controlar o medo, a ansiedade e a incerteza.

Até que, finalmente, depois de uma viagem muito mais longa do que eu imaginava, consegui chegar a Medellín.

Ainda faltava chegar ao aeroporto.

Ainda faltava conseguir embarcar.

Mas, naquele momento, eu já sabia que aquela viagem havia se transformado em outra coisa.

O que deveria ser uma passagem por Cali para viver o Petronio Álvarez e conhecer um pouco mais daquela cidade havia se transformado em uma experiência de sobrevivência, deslocamento e incerteza.

Uma verdadeira odisseia até o Aeroporto Internacional de Medellín — e, finalmente, de volta para casa.

…. 

O caminho até o aeroporto não foi fácil.

Quando cheguei ao Terminal de Transportes de Medellín, no lado norte da cidade, ainda precisava atravessar praticamente toda Medellín para chegar ao aeroporto Internacional José María Córdova, em Rionegro.

Naquele momento, atravessar a cidade de carro ou de ônibus parecia impossível.

O trânsito estava caótico.

Foi então que tomei uma decisão quase desesperada: pegar uma moto de aplicativo.

Com a mala, a mochila e a bolsa, subi na moto e comecei a atravessar Medellín de uma ponta à outra.

Enquanto a cidade passava diante dos meus olhos, eu ainda tentava resolver outra questão: o check-in do meu voo.

Eu não estava conseguindo concluir o procedimento.

E o relógio continuava correndo.

A cada minuto, a ansiedade aumentava.

Até que, finalmente, consegui fazer o check-in.

E então veio o momento que parecia impossível.

Cheguei ao aeroporto faltando apenas cinco minutos para o horário do meu voo de Medellín para o Brasil.

Cinco minutos.

Entrei, consegui embarcar e, finalmente, estava dentro do avião.

Mas, mesmo sentado ali, com a sensação de que havia conseguido escapar de uma situação completamente fora do meu controle, algumas coisas continuavam martelando na minha cabeça.

Uma delas era a sensação de que eu deveria ter permanecido.

De que talvez eu pudesse ajudar de alguma forma o povo colombiano.

Mas como fazer isso?

Eu havia acabado de chegar a Cali. A cidade estava entrando em colapso. Eu havia cancelado o Airbnb onde ficaria hospedado justamente porque havia rachaduras nas paredes e já não me sentia seguro para permanecer ali.

Eu também precisava voltar para o Brasil.

Ao mesmo tempo, havia uma cidade inteira precisando de ajuda.

Havia pessoas procurando familiares.

Havia pessoas sem comida, sem medicamentos, sem abrigo.

Havia comunidades inteiras afetadas pelo terremoto em Cali, Buenaventura, Quibdó e em outras regiões.

E foi justamente naquele momento, dentro daquele avião, que comecei a entender que talvez a minha forma de ajudar não precisasse necessariamente ser permanecendo fisicamente ali.

Eu poderia ajudar contando.

Poderia ajudar dando visibilidade.

Poderia ajudar fazendo com que outras pessoas soubessem o que estava acontecendo.

Por isso, deixo aqui também um chamado.

Quem puder, procure os perfis e as redes de mobilização que estão atuando diretamente na Colômbia, como o Petronio Álvarez, em Cali, o Negrofest e ativistas e coletivos de Medellín que estavam se organizando para arrecadar e distribuir aquilo que era mais urgente naquele momento: medicamentos, alimentos, luvas, lanternas, pás, picaretas e outros materiais necessários para as buscas e para o atendimento às pessoas atingidas.

@malungaje_ahora_

Porque, enquanto eu conseguia finalmente embarcar de volta para o Brasil, muita gente ainda estava lá.

Muita gente ainda procurava seus familiares.

Muita gente ainda tentava entender o tamanho da tragédia.

E talvez essa seja uma das coisas que uma viagem nos ensina: às vezes, partir não significa abandonar.

Às vezes, partir também pode ser uma maneira de levar a história adiante.

De contar o que vimos.

De dar visibilidade.

E, principalmente, de lembrar que, quando uma comunidade atravessa uma tragédia, a nossa presença também pode acontecer através da solidariedade.

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Uran Rodrigues
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