Eram oito horas da noite quando foi decretado o toque de recolher.
A informação chegou até mim quando eu estava pela Praça de Santo Antônio, próximo à Capilla de Santo Antônio, descendo a ladeira com duas amigas brasileiras que havia encontrado ali na praça, no final da tarde. Ainda estávamos naquele estado quase contemplativo de quem havia passado algumas horas vendo o entardecer, conversando, observando a cidade.
Foi então que uma mulher branca passou por nós e disse que havia sido decretado o toque de recolher.
Naquele momento, achei que ela estivesse louca.
Pensei imediatamente naquelas mensagens que circulam pelo WhatsApp, informações desencontradas que chegam de todos os lados e que, muitas vezes, não passam de boatos. Olhei para minhas amigas e, ainda conversando, duvidamos que aquilo pudesse ser verdade.
Continuamos andando.
Queríamos encontrar algum lugar onde pudéssemos nos sentir seguras para tomar uma bebida, comer alguma coisa. Já era noite, e depois de passar o final da tarde na região de Santo Antônio, parecia natural procurar um lugar para continuar a noite.
Mas, pouco a pouco, alguma coisa começou a mudar.

As ruas foram ficando vazias.
Os estabelecimentos começaram a fechar. As pessoas desapareciam das calçadas. O movimento que, minutos antes, parecia absolutamente normal, foi dando lugar a uma cidade estranhamente silenciosa.
Então chegou outra mensagem.
Dessa vez, não parecia mais um boato.
O toque de recolher realmente havia sido decretado.
E, naquele momento, começamos a compreender que o que estava acontecendo era muito maior do que havíamos imaginado.
As pessoas estavam preocupadas com possíveis assaltos, com as conturbações que poderiam acontecer em uma cidade praticamente deserta, em meio ao caos e à falta de informações precisas. As notícias chegavam de todos os lados. Pessoas soterradas. Pessoas mortas. Pessoas desaparecidas.
Foi ali, no bairro de Santo Antônio, que comecei a dimensionar a proporção daquela tragédia.
O terremoto havia alcançado 7,4 de magnitude e provocado destruição em diferentes cidades do Pacífico colombiano. A região do Chocó estava entre as mais atingidas. Quibdó, Buenaventura e outras localidades enfrentavam uma situação dramática. Estradas estavam inacessíveis, pontes haviam desabado, prédios tinham sido destruídos. Havia mortos e desaparecidos.
E eu estava em Cali.
Até aquele momento, eu precisava decidir como sair daquela cidade.
Eu havia chegado a Cali por causa do Petronio Álvarez, um dos acontecimentos culturais mais importantes daquela região. Mas o próprio festival havia divulgado o seu cancelamento em razão do terremoto que também havia atingido Cali.
De repente, toda a programação que me havia levado até ali deixava de existir.
E eu me encontrava diante de uma decisão que, naquele momento, parecia impossível de tomar.
Eu voltaria para Medellín para, de lá, retornar ao Brasil?
Ou permaneceria em Cali por mais alguns dias?
Eu ainda não sabia.
Só sabia que aquela cidade que eu havia chegado para conhecer, viver e celebrar tinha mudado completamente de rosto em poucas horas.
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