“Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão.” A frase que dá nome ao novo álbum dos Gilsons lançado hoje resume o espírito do trabalho: um disco curto, direto e profundamente conectado às vivências mais recentes do trio formado por Francisco, José e João Gil.
Com 10 faixas e cerca de 30 minutos, o projeto chega como um respiro depois de um período intenso — pessoal e coletivamente. “Foi um remédio”, define Francisco Gil. Segundo ele, o grupo teve o privilégio do tempo entre um disco e outro, priorizando a estrada e os shows, mas também precisou atravessar um ano difícil, marcado pela perda da mãe do vocalista Preta Gil, que acabou impregnando as composições. “O disco está imerso nisso.”
A canção que abre o álbum nasceu em um momento delicado: foi composta em um dos dias em que Francisco saiu do quarto do hospital em direção ao elevador. “Pedi um presente pro universo, após tempos sem compor. Fui gravando e e foi vindo, relembra. A imagem da luz que surge em meio à escuridão não é metáfora vazia — é experiência transformada em música. “É um disco luminoso pra gente. Não renuncia o que vivemos, mas traz luz.”
Processo coletivo, essência preservada
Apesar de cada integrante escrever em seu próprio espaço — “somos três cabeças, cada um escreve num canto e depois a gente se junta” —, o álbum marca um reencontro com a essência do trio. A primeira música composta pelo cantor e compositor Narcisinho “Bem Me Quer” foi o ponto de partida para o restante do trabalho. Ele também é um dos compositores de “Várias Queixas”, primeiro grande hit do trio.
Questionado pelo Guia Negro, se o trio tem vontade gravar outros sucessos de blocos afros, eles respondem que têm “muito respeito e pertencimento” por essas canções. “Esse foi um verão que a gente reafirmou isso. No meu aniversário, a gente foi cantar com o Olodum. Antes, a gente foi na Timbalada e o Carlinhos Brown chamou a gente pra cantar. É uma contribuição que os blocos afros têm…Se não fosse eles a gente não existia, foram muitos anos vendo os trios elétricos passarem”, valoriza Francisco. Já José lembra que tem muita gente que inspira musicalmente a banda e enumera: Ara Ketu, Lazzo Matumbi, Lazinho, Tatau, Edson Gomes, Luiz Caldas. Ele diz que são influências musicais da banda e não descarta em algum momento lançar um disco apenas de regravações.
Enquanto o primeiro disco buscava uma identidade musical, o novo álbum traz parcerias e feats. “A alquimia funciona de um jeito que as músicas ganham caminhos”, explica. O disco quase ganhou uma faixa reggae, ritmo que o trio aprecia, mas a escolha final foi por manter a unidade conceitual do projeto. O resultado é um repertório que fala de amor e sentimento não como fórmula, mas como impulso genuíno. “Amor é poético por natureza. Só a palavra já traz leveza por si só.”
Maturidade, ritmo e espiritualidade
Para José Gil, produtor do novo trabalho, o processo foi solitário em alguns momentos, mas sempre carregado da presença dos parceiros. “Tem muita renúncia. São sete anos de grupo. A gente briga menos — mais ou menos”, brinca. Ele enxerga no novo trabalho um passo de maturidade: “Há uma continuidade, mas também um avanço.”
José destaca a construção rítmica como um dos pontos fortes do álbum. A faixa “Desejo” foi a que mais o marcou, especialmente pela presença de tambores de candomblé e uma atmosfera tribal. “As músicas têm intenções rítmicas e muitas possibilidades.” Canções como “Bem Me Quer”, “Beijo na Boca” e “Semeia” despontam como potenciais hits, agora com mais camadas e instrumentos, revelando uma sonoridade mais encorpada.
Já João Gil descreve o disco como “100% energético, do acaso”. “O Deus em que eu acredito é o do acaso. Quando as coisas acontecem, têm um propósito.” Para ele, o álbum é uma mistura de tudo o que foi vivido no último ano — uma viagem pessoal e coletiva.
Nova era também no palco
A reinvenção não ficou restrita ao estúdio. O trio está trabalhando uma nova concepção visual para o show, com telão, nova disposição de palco e um cuidado maior com a narrativa estética da apresentação. “É um progresso no sentido visual”, afirma João.
Além disso, os Gilsons estão filmando conteúdos especiais sobre o disco na Bahia, trazendo um álbum visual como ocorreu nos últimos trabalhos. “São vivências dos próprio disco, como as que a gente viveu no estúdio do Caetano Veloso”, lembra Francisco, revelando que as gravações também ocorrem em Salvador e Moreré (BA). “Será ainda mais cinematográfico, com atores”, diz João.
O trio tem curiosidade para entender como as músicas vão ecoar nas pessoas . “Entender que a música se conecta com alguém em algum lugar”, diz João, já imaginando como a música “Zumbido” vai atingir as pessoas nos shows. A faixa traz uma referências do rock and roll.
Luminoso, íntimo e amadurecido, o novo álbum dos Gilsons reafirma a força de um trio que transforma renúncias, desafios e afetos em canções que iluminam. Um respiro que nasce da escuridão, mas escolhe, deliberadamente, a luz.












