Um dos destinos brasileiros dos quais eu mais nutria imensa vontade de conhecer, é São Luís. Aprendi sobre a capital maranhense na voz de Alcione, cantando sobre a terra natal em quase todos os discos. “Quem ainda não viu tambor de crioula do Maranhão?”, pergunta de uma toada que eu respondia afirmativamente até a última quinta (22), dia de check in nas bandas de cá.
Logo na chegada fui recepcionado com uma apresentação espontânea da manifestação cultural nas ruas do Centro Histórico, local onde escolhi me hospedar por conta da proximidade da maioria dos museus. Reconheci que haveria o tambor ao ver a fogueira afinando os instrumentos dispostos no chão: tambor grande, meião e crivador. O “rum pi lé”, a Trindade que dá o tom da alegria, que evoca a ancestralidade, o axé.

O grande é tocado amarrado à cintura do tocador, chamado de coreiro; nos outros, os coreiros sentam-se para batucar, até a mão inchar. Disseram-me que o combustível para aguentar é a cachaça, e a mais famosa daqui é a tiquira, que por sua vez também é a mais alcoólica (teor de 40% a 50%).
A roda aconteceu em frente a um casarão que parecia ser um espaço cultural, e o destaque na parte de dentro era o altar de São Benedito. Vi algumas pessoas dançarem em frente ao santo, antes de irem ter seus particulares com ele. Aliás, reza a tradição que a pessoa tem de se benzer toda vez que passar pela frente do padroeiro dos cozinheiros. Nos grupos tradicionais, as saias das coreiras (dançarinas) são todas floridas em alusão a um milagre de Benedito, que era cozinheiro franciscano e escondia alguns pães para distribuir para os pobres. Flagrado, deixou alguns pães caírem do seu hábito, que logo se transformaram em flores.
Mas nessa roda na rua, nem toda saia era florida, e nem toda coreira mulher. Vi dois homens entrarem para girar, um deles com saia, o outro sem; este foi logo retirado por uma das coreiras mais velhas que bradou: “que palhaçada é essa?”. Nessa festa, mulheres de diferentes gerações e requebrados dão o brilho da manifestação que, por vez ou outra, pausa para afinação dos tambores e descanso dos tocadores para se reabastecerem.
Fiquei hipnotizado com a beleza desse Brasil que gira, celebra e educa entre toques e pungas (umbigadas das coreiras para dar espaço para a outra dançar). Este foi o meu abre-alas em São Luís, que festeja o pré-carnaval em dois circuitos principais: Vem pro Centro e Vem por Mar.
O primeiro, que acontece no Centro Histórico, aglutina três palcos com apresentações simultâneas, destinados a diferentes ritmos. O palco Célia Sampaio é do reggae com DJ’s e apresentações ao vivo, em que o povo dança solto e coladinho ao som das “pedras” (hits). O Fuzileiros da Fuzarca fica por conta das marchinhas, axé e samba. E no Waldecy Vale apresentam-se blocos tradicionais do Maranhão, a tocarem toadas e afoxés. No sábado, aproveitei pelo Centro e fiquei admirado com a diversidade de opções para curtir. Pessoas de várias idades celebravam a festa e, apesar de cheio, não senti desconforto e nem presenciei confusão. No dia seguinte, fui ao outro circuito para experimentar a sensação de ir atrás de um trio, fora de Salvador.

Curiosamente, a atração principal do dia foi Ivete Sangalo, que arrastou uma multidão sem cordas, apesar de também haver camarotes na Avenida. O percurso, de aproximadamente 2h15, é consideravelmente menor, se comparado ao circuito Barra-Ondina, por exemplo. Com uma faixa de areia imensa, muitas pessoas saíram da pista para curtir pela praia, e foi o que eu fiz. E, da mesma maneira, foi muito agradável.
O pré-Carnaval segue aos sábados e domingos nos dois circuitos, e depois dos dias 13 a 17, no maior carnaval do Maranhão (até então). Algumas pessoas ainda reduzem a experiência do estado aos Lençóis Maranhenses, e perdem a oportunidade de aprofundamento cultural na capital brasileira do reggae, do tambor de crioula, e que agora está no páreo com outras capitais para dar o seu nome na folia momesca. É pedra de responsa* e, montado na onça ou não, já quero voltar pra Ilha.
*Referência à música Pedra de Responsa, de Chico César e Zeca Baleiro
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