Por Uran Rodrigues*
Saí de Medellín às dez da noite.
Foram oito horas de estrada.
Cheguei a Cali por volta das seis da manhã, direto no terminal de transporte. Sozinho, depois de uma noite inteira viajando, com uma mala, uma mochila nas costas e uma bolsa.
Meu Airbnb só liberaria o check-in às 16h.
Então, em vez de esperar, peguei minhas coisas e fui.
Segui para San Antonio, rodando pelas ruas com a mala, a mochila e a bolsa. Ainda era cedo. Cali estava começando a acordar.
Resolvi caminhar em direção à Capilla de San Antonio.
Subi a ladeira carregando tudo comigo.
E foi aí que aconteceu.
Numa encruzilhada, ouvi um estrondo forte.
Depois percebi as árvores balançando.
E foi uma daquelas imagens que parecem cena de filme.
Cali é uma cidade profundamente marcada pelo verde. Árvores enormes, sombras, pássaros por todos os lados.
Só que naquele momento as árvores pareciam dançar de um jeito diferente.
As aves começaram a levantar voo em revoada.
Os cachorros latiam.
As pessoas começaram a sair das casas.
E eu, no meio daquela cena, ainda tentando entender o que estava acontecendo, senti o chão se mover.
Olhei para um homem que estava ao meu lado com dois cachorros e perguntei:
— ¿Es un terremoto?
— Sí.
Era.
E naquele instante veio uma sensação quase de fim de mundo.
Não era apenas o chão se movendo.
Era tudo se movendo ao mesmo tempo.
As árvores.
Os pássaros.
Os animais.
As pessoas.
E eu.
Por alguns segundos, parecia que a cidade inteira tinha entrado em suspensão.
Confesso que senti medo.
Mas continuei.
Continuei subindo.
Com a mala.
Com a mochila.
Com a bolsa.
Com tudo aquilo que eu havia trazido comigo depois de oito horas de estrada.
Sentindo o chão
Cheguei à praça de San Antonio e subi a escadaria até a Capilla.
Depois fiquei ali.
Contemplando a praça, olhando a cidade, esperando o tempo passar até chegar a hora de descer.
E fiquei pensando no simbolismo daquela chegada.
Eu tinha acabado de atravessar oito horas de estrada.
Cheguei sozinho, carregando minhas coisas, sem sequer ter onde deixar a bagagem.
E, antes de conseguir entrar na casa onde eu iria ficar, a própria cidade me apresentou o seu chão.
Talvez seja isso que algumas viagens fazem com a gente.
A gente chega carregando nossas histórias, nossas expectativas, nossas malas, nossas certezas.
E, às vezes, o território dá uma sacudida para lembrar que nada está completamente sob nosso controle.
Antes de conhecer Cali, eu senti Cali.
Senti no corpo.
Senti no chão.
Senti no medo.
Senti nas árvores balançando.
Nas aves levantando voo.
Naquela imagem surreal de uma cidade inteira reagindo ao movimento da terra.
*Uran Rodrigues é um agitador cultural, promoter brasileiro e idealizador do baile O Pente (@opente_festa), além do projeto Sinta a Luz (@sinta.a.luz)












