Terreiro submerso é encontrado em obras de estação de metrô do Bixiga em SP

Novos vestígios arqueológicos encontrados durante as escavações da futura Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, reforçam a importância histórica e religiosa do território onde existiu o Quilombo do Saracura, considerado a origem do Bixiga. As descobertas fortalecem a defesa da criação da primeira estação metroferroviária musealizada do Brasil, iniciativa que pode colocar São Paulo ao lado de outras cidades da Europa, Ásia e América Latina que integram transporte público e preservação do patrimônio histórico (21 estações ao todo).

O Guia Negro foi o primeiro veículo a anunciar os achados arqueológicos na estação em julho de 2022. Até então, a grande mídia relutava em anunciar o fato. De lá para cá, surgiu um movimento social para mudar o nome da estação que até então chamaria apenas 14 Bis. A demanda popular é que ela seja denominada de Saracura-Vai-Vai, homenageando também a escola de samba Vai Vai, que ficava no local, tinha fundamentos religiosos do candomblé, e foi desalojada para a construção do metrô.

A linha chegou a ser parcialmente inaugurada pelo governo do Estado, com sete anos de atraso, mas não funciona em todas as estações e nem em sua totalidade. No caso do Bixiga, as novas escavações, realizadas desde junho, revelaram novos alicerces, trechos de paredes e pisos a cerca de sete metros abaixo do atual nível da Avenida Nove de Julho, onde ficava o Rio Saracura, que dava nome à região.

Terreiro submerso

Segundo relatório arqueológico publicado em julho no processo público do Sistema Eletrônico de Informações (SEI), as estruturas correspondem a aproximadamente 29 metros de extensão e foram classificadas como evidências inéditas de “parte de um espaço sagrado vinculado a um terreiro de Candomblé, em continuidade ao contexto anteriormente reconhecido na Área 4”.

Além das estruturas construtivas, a equipe de arqueologia identificou diversos objetos relacionados ao cotidiano e às práticas religiosas da população negra que ocupava o território. Entre os materiais encontrados estão fragmentos de cerâmica, cerca de um quilo de waji — pó azul sagrado utilizado no candomblé —, conchas marinhas, ossos de animais e uma cavidade estruturada no solo com aproximadamente dois metros de profundidade.

A consultora em religiões de matriz afro-brasileira da pesquisa arqueológica, a antropóloga Syntia Alves, aponta que essa estrutura pode corresponder a um fundamento de terreiro de candomblé. O relatório também destaca elementos associados aos orixás Exu e Ogum, considerados guardiões históricos do território, conforme registrado pela pesquisadora Cláudia Alexandre no livro Orixás no Terreiro Sagrado do Samba.

Transparência e preservação

Diante das novas descobertas, o coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai voltou a cobrar do Governo do Estado, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da concessionária responsável pela obra medidas concretas para garantir a preservação do sítio arqueológico e maior transparência sobre o andamento das escavações.

Segundo o movimento, os novos vestígios confirmam a existência de um “espaço sagrado permanente” e reforçam a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa arqueológica.

O coletivo também contesta a narrativa de que a preservação arqueológica seria responsável pelo atraso da obra da Linha 6-Laranja. Para o movimento, os atrasos decorrem principalmente das condições geológicas do terreno, atravessado pelo Rio Saracura, e não das pesquisas arqueológicas.

“A população tem direito tanto ao transporte quanto à memória e um não deve sobrepor ao outro”, afirma o Mobiliza Saracura Vai-Vai. O grupo defende o reforço das equipes de arqueólogos e trabalhadores da construção para acelerar a conclusão da estação sem comprometer a preservação do patrimônio histórico.

Outra reivindicação é a divulgação de um cronograma específico para a conclusão da Estação 14 Bis-Saracura, informação que, segundo o movimento, nunca foi apresentada oficialmente pela concessionária.

O coletivo também solicita esclarecimentos do Iphan e do Governo do Estado sobre a fiscalização da nova etapa das escavações, o acompanhamento técnico e a guarda dos materiais encontrados na chamada Área 6.

Memória negra e direito à cidade

Para o Mobiliza Saracura Vai-Vai, as novas descobertas fortalecem a luta pela preservação da memória negra no Bixiga e pelo reconhecimento da permanência histórica da população negra na região.

“O governo do Estado deve à comunidade uma resposta sobre qual será o investimento na preservação, exposição e devolução dos achados à comunidade”, afirma o movimento.

A mobilização também defende que a futura estação seja um espaço de memória capaz de reconhecer a história do Quilombo do Saracura, da antiga quadra da Escola de Samba Vai-Vai e das comunidades negras que ajudaram a construir a identidade cultural do bairro.

As descobertas ampliam o conjunto de evidências arqueológicas já identificadas durante as obras da Linha 6-Laranja e reforçam a importância do Sítio Arqueológico Saracura Vai-Vai como um dos mais relevantes patrimônios da história afro-brasileira na cidade de São Paulo.

Atualmente, as obras da Estação 14 Bis-Saracura estão com 15,11% de execução.

Concessionária e Iphan

Em nota, a Linha Uni informou que segue as orientações do Iphan em relação aos novos achados arqueológicos.Segundo a concessionária, os materiais serão registrados, catalogados e recolhidos para compor o acervo do sítio arqueológico.

A empresa informou ainda que, durante o período de verificação, as atividades foram temporariamente pausadas no trecho do canteiro de obras onde os objetos foram encontrados e afirmou que mantém diálogo constante com os órgãos responsáveis e com a comunidade local sobre os trabalhos realizados na área da estação.

Em nota, o Iphan informou que recebeu, em 28 de julho, o relatório de monitoramento arqueológico do Sítio Saracura/Vai Vai, que está em análise pela equipe técnica. O Instituto só vai se manifestar após esta etapa.

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Redação

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