Caminhada dos Saberes leva história negra de São Paulo a estudantes da rede pública

São Paulo, agosto de 2026 — E se as ruas de São Paulo também fossem uma sala de aula? Foi a partir dessa pergunta que o Guia Negro, plataforma especializada em afroturismo, e o Instituto Bancorbrás realizaram a primeira etapa da Caminhada dos Saberes, projeto que utiliza o afroturismo como ferramenta de educação patrimonial, valorização da história negra e construção de pertencimento.

Entre maio e agosto de 2026, foram realizadas cinco edições com estudantes de escolas públicas de diferentes regiões da capital paulista. Ao todo, 132 alunos participaram das caminhadas e 120 professores participaram dos encontros pedagógicos realizados posteriormente nas escolas. A iniciativa teve como ponto de partida simbólico o 14 de maio, dia após a data da abolição da escravidão no Brasil, propondo uma abordagem que ultrapassa a narrativa tradicional da abolição para destacar o protagonismo, a resistência e as contribuições da população negra para a formação de São Paulo.

A proposta nasceu da experiência da Caminhada São Paulo Negra, já realizada pelo Guia Negro, mas amplia sua finalidade: em vez de tratar o roteiro apenas como uma experiência turística, transforma o deslocamento pela cidade em uma metodologia pedagógica. Os estudantes percorrem territórios relacionados à presença negra e conhecem personagens, acontecimentos e histórias que nem sempre aparecem nos roteiros tradicionais de educação e turismo.

“Mais do que levar estudantes a determinados pontos da cidade, a proposta é ensinar a olhar para São Paulo a partir de outras perspectivas”, resume a proposta do projeto. A caminhada busca aproximar escola, território, cultura, história e turismo, estimulando o senso crítico e ampliando o sentimento de pertencimento dos jovens em relação à cidade.

Cinco escolas, cinco regiões de São Paulo

Participaram do projeto cinco escolas públicas:

  • Escola Municipal de Ensino Fundamental – EMEF Vinicius de Moraes, em Sapopemba, Zona Sudeste;
  • EMEF Benedito Montenegro, no Jardim Três Marias, em São Mateus, Zona Leste;
  • Escola Estadual Buenos Aires, em Santana, Zona Norte;
  • EMEF Professora Dayse Amadio Fujiwara, no Jardim Arpoador, Zona Oeste;
  • EMEF Padre José Pegoraro, no Grajaú, Zona Sul.

A primeira caminhada aconteceu em 14 de maio, com 28 alunos da EMEF Vinicius de Moraes. A última foi realizada em 13 de agosto, com 28 estudantes da EMEF Padre José Pegoraro. Ao longo do período, estudantes de diferentes pontos da capital foram transportados até a região central para participar dos roteiros.

Além das caminhadas, o projeto contou com uma etapa pedagógica. Antes dos roteiros, as escolas participaram de encontros online de preparação. Depois das atividades nas ruas, a equipe do Guia Negro esteve presencialmente nas cinco instituições para encontros de aproximadamente uma hora com os educadores, contextualizando as histórias apresentadas durante o percurso e oferecendo ferramentas para que o conteúdo pudesse ser trabalhado em sala de aula.

A iniciativa também despertou interesse dos próprios professores. Algumas escolas chegaram a contratar, a preço social, roteiros exclusivos para os educadores, permitindo que eles também vivenciassem a experiência antes de trabalhá-la com os estudantes.

Para garantir o acesso dos estudantes, os trajetos contaram com ônibus partindo das escolas. Os participantes também receberam lanche, ecobag, copo retornável e folder sobre a atividade.

História negra como experiência de território

Foto: Heitor Salatiel

Um dos principais resultados apontados pelo projeto é a democratização do acesso à educação patrimonial. A iniciativa levou uma metodologia de afroturismo diretamente para o ambiente da escola pública e permitiu que estudantes tivessem contato presencial com histórias e territórios relacionados à população negra em São Paulo.

A experiência também propõe uma mudança na maneira de ensinar história. Ao caminhar pelos lugares relacionados às trajetórias de comunidades e personagens, os estudantes estabelecem uma conexão mais concreta entre passado e presente. O patrimônio, nesse processo, deixa de ser algo distante e passa a ser percebido como parte da cidade onde vivem.

Para o Guia Negro, a experiência reforça o potencial do afroturismo educacional. Os resultados mostram que roteiros podem ser adaptados ao público escolar mantendo profundidade e criando formas de diálogo com jovens e de estímulo à participação.

Turismo também pode gerar impacto social

A parceria entre Guia Negro e Instituto Bancorbrás evidencia uma possibilidade de atuação do turismo que vai além da experiência de viagem, “sendo uma ferramenta de desenvolvimento social e cultural para esse público, proporcionando uma formação cidadã e mais completa, afirma Claudio Roberto, Diretor Executivo do Instituto Bancorbrás. 

Com o encerramento da primeira etapa, Guia Negro e Instituto Bancorbrás apontam para a continuidade e ampliação da iniciativa. Entre as possibilidades estão aumentar o número de escolas e edições, percorrer novos roteiros sobre a história negra de São Paulo, desenvolver materiais para serem utilizados antes e depois das caminhadas, registrar sistematicamente as percepções dos estudantes e levar a experiência para outras cidades e territórios.

“Fazer parte de iniciativas como a Caminhada dos Saberes tangibiliza nosso desejo de fomentar e empreender um turismo consciente e responsável, que respeita e resgata a história e a cultura afro, sendo ainda um instrumento de educação transformadora”, completa Claudio.

Sobre o Guia Negro

O Guia Negro é uma plataforma de afroturismo que atua na valorização das histórias, culturas, territórios e protagonismos negros por meio de experiências, conteúdos, projetos e consultorias.

Sobre o Instituto Bancorbrás

O Instituto Bancorbrás atua no desenvolvimento de iniciativas de responsabilidade social, contribuindo para projetos relacionados a turismo responsável e impacto positivo.

Leia mais:

Compartilhe:
Avatar photo
Redação

O Guia Negro faz produção independente sobre viagens, cultura negra, afroturismo e black business

Artigos: 856

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *